Curiosidades em Macau

E temos narrativas de cunho simbolista, de cunho fantástico, de recorte realista, fábulas e até anedotas de amplexo mitológico. É isso que o torna uma fonte de surpresas e profusamente actual – isso e um humor subterrâneo que de vez em quando aflora.

António Cabrita, num texto dedicado a Curiosidades Literárias e Outros Contos, de Rubén Darío, o quinto volume da Colecção Avesso, no jornal Macau Hoje. O texto completo está disponível aqui.
 

O esbatimento de fronteiras entre a prosa e o verso é a grande inovação da narrativa breve de Darío

Segundo os críticos mais severos, um dos principais defeitos da prosa dariana é o facto de ser excessivamente lírica, isto é, nos seus contos e conatos de romance, a linguagem adquire mais importância do que a ficção narrativa, o que resta tensão ao relato, ou seja, o que querem dizer é que há pouca acção nos seus contos.
Claro que o excesso de lirismo não é um traço idiossincrático apenas dos seus contos, mas da sua prosa no geral. Aliás, os editores do conhecido diário bonaerense «La Nación» (do qual Darío foi colaborador desde 1889 até ao ano da sua morte), estiveram prestes a despedi-lo em várias ocasiões, fartos das copiosas referências artísticas, literárias e culturais que inseria nas suas crónicas, que, como género jornalístico, deviam ser objectivas e fáceis de entender.   
Mas, de outra perspectiva, de acordo com a crítica mais recente, este esbatimento consciente de fronteiras entre a prosa e o verso é precisamente a grande inovação da narrativa breve de Darío, uma interpretação com a que concordo plenamente porque, da mesma forma que grande parte da sua prosa é, efectivamente, lírica, muitos dos seus poemas mais conhecidos, como «Sonatina» ou «A Margarita Debayle», são autênticos contos em verso.

Mirta Fernández, na apresentação de Curiosidades Literárias e Outros Contos, de Rubén Darío, no Porto, 5 de Maio de 2018. Texto completo aqui.

Leveza, humor, surpresa e formosura

[Este livro], além do gozo que dá, tem o mérito de mostrar a versatilidade, aperfeiçoamento e mestria da ficção em prosa de Darío. Desde “Os Meus Primeiros Versos” (1886) até “Curiosidades Literárias” (publicado na sua revista parisiense, Mundial Magazine, em Julho de 1913), segue-se a trajectória clara de um contista e prosador que desde cedo soube manipular a linguagem com leveza, humor, surpresa e formosura, sem nunca parar de procurar novos desafios para a técnica. Deve-se esperar destes 24 contos o inesperado, o fantástico, o trágico, às vezes, o cómico o mais das vezes, sempre o Belo com B maiúsculo e musculado.

Luís Miguel Rosa, num longo e suculento artigo, a propósito de Curiosidades Literárias e Outros Contos, de Rubén Darío, disponível aqui.

Cuidadíssima antologia

Com um leque de textos que cobre toda a carreira do escritor (dos 19 anos até às vésperas da morte), esta cuidadíssima antologia mostra-nos a espantosa diversidade de registos, temáticas e fontes de inspiração da prosa de Darío. O vasto espectro vai da ironia mais fina à vinheta trágica, da parábola sarcástica ao delírio lírico. Denominador comum: a inventividade dos relatos e uma espécie de dom féerico para captar atmosferas, com o mínimo de palavras e o máximo de efeito expressivo.

José Mário Silva, no semanário Expresso, de 28 de Abril de 2018.
(Texto online só para assinantes.)



Este a quem Borges chamou um dia "o Libertador"

Se é certo que Darío é menos cotado como prosador que como poeta, estes contos, numa edição que orgulharia a obsessão gráfica que ele tanto cuidou, em versões onde uma certa literalidade é bem doseada a favor de um efeito de estranhamento fiel à sua poética, encontramos a mesma desfaçatez verbal, a mesma insolência formal, a mesma frescura de um poeta com experiência de repórter, de ritmos e cores contagiantes. Em ficções que tematizam a relação conflituosa entre arte e sociedade, fazem a crítica do materialismo capitalista, servem de palimpsesto exuberante de matérias ou literárias, se lançam no género fantástico ou na crónica humorística, celebrando sempre o descaramento imaginativo e formal, encontramos aqui pretextos suficientes para nos deixarmos surpreender por este a quem Borges chamou um dia "o Libertador" e do qual disse ter renovado tudo, temas, vocabulário, ritmos, "a magia peculiar de certas palavras".

Miguel Filipe Mochila, a propósito de Curiosidades Literárias e Outros Contos, de Rubén Darío, no jornal i, de 26 de Abril de 2018. Texto completo aqui.





Ainda antes de chegar às livrarias, o Darío já chegou ao jornal i



Poeta precoce, contista, jornalista e diplomata, Rubén Darío é uma das vozes mais importantes da literatura latino-americana. Nascido em Metapa em 1867, Darío foi desde cedo uma figura tão criativa quanto rebelde. (...) Porém, a falta de traduções da obra do nicaraguano torna-o numa figura das letras hispanas imerecidamente inacessível, tanto na lusofonia como noutros idiomas. Curiosidades Literárias e Outros Contos vem contrariar essa tendência. Trata-se da primeira antologia de textos de ficção de Darío publicada em Portugal. (...) Com prefácio de André Fiorussi (académico especializado na obra de Darío), é o quinto volume da Avesso, colecção pertencente à Editora Exclamação.

Mariano Alejandro Ribeiro, na edição de 26 de Fevereiro de 2018, do jornal i.
Texto completo aqui.

Deus

Começa a fazer-se tarde.
A festa está no auge.
Os alegres companheiros são todos cor, barulho, amor.
As lindas raparigas, desapertadas, descompostas, abandonam-se. Os seus olhos entrecerram-se docemente, e os seus lábios que se entreabrem deixam aperceber tesouros húmidos de púrpura e de nácar.
As taças, nunca cheias e nunca vazias!
Esvoaçam no ar as canções, ritmadas pelo tilintar dos copos e pelas casquinadas de riso das lindas raparigas.
De súbito, o velho relógio da sala de jantar interrompe o seu tiquetaque monótono e resmungão para ranger raivosamente, como faz sempre quando lhe dá para bater as horas.
É meia-noite.
As doze badaladas caem, lentas, graves, com aquele ar de ralho próprio dos velhos relógios patrimoniais. Parecem dizer-nos que já muitas badaladas deram eles para os nossos avoengos desaparecidos e que ainda muitas mais darão para os nossos netos, quando nós já não estivermos cá. 
Sem se aperceber, a nossa alegre companhia pôs uma surdina à sua balbúrdia e as raparigas deixaram de rir.
Mas Albéric, o mais louco da nossa rapaziada, levantou a taça e proferiu, com uma gravidade cómica:
«Meus senhores, é meia-noite. É a hora de negar a existência de Deus.»
Toc, toc, toc!
Batem à porta.
«Quem será?... Não estamos à espera de ninguém e os criados foram dispensados.»
Toc, toc, toc!
A porta abre-se e surge a grande barba prateada de um ancião de grande estatura, trajando uma longa túnica branca.
«Quem é você, criatura?»
O ancião respondeu com grande simplicidade:
«Sou Deus.»
Ao ouvirem esta declaração, todos os jovens sentiram um certo incómodo; mas Albéric, que tinha, decididamente, muito sangue-frio, replicou:
«Isso não o impede, espero, de beber connosco?»
Na sua infinita bondade, Deus aceitou a oferenda do jovem senhor e, passado pouco tempo, já toda a gente estava à vontade.
Continuou a beber-se, a rir-se, a cantar-se.
Já a azulácea manhã fazia empalidecer as estrelas quando pensámos em ir-nos embora.
Antes de se despedir dos seus anfitriões, Deus admitiu, com todo o gosto, que não existia.

Alphonse Allais, 63 Histórias de Humor e 1 Poema Melancólico
Tradução, introdução e notas de Filipe Guerra.

Conto para Sara

O que aconteceu a uma menina

Era uma vez uma menina pequena que foi passear a boneca e encontrou dois passarinhos muito simpáticos. Fez-lhes uma ligeira reverência e disse-lhes: «Bom-dia, passarinhos!... Querem brincar comigo?... Tenho pevides no meu saquinho e dou-lhes também.» Um dos passarinhos disse: «Eu quero!» E o outro disse: «Eu também!» E divertiram-se muito quase até à noite. A certa altura, os passarinhos disseram: «Agora queremos ir embora.»
Ora bem, juntamente com a noite a chegar, chegou também à cabeça da menina um pensamento maldoso; disse aos passarinhos: «Ainda tenho pevides no fundo do meu saquinho; se quiserem, podem vir buscá-las.» Os passarinhos foram muito depressa e, crac!, a menina apertou logo os cordões e os passarinhos ficaram presos. De nada lhes valeu gritarem e gritarem: a menina levou-os no saco.
Nessa mesma noite, rondava precisamente por ali um gatarrão. Ao ouvir gritar os passarinhos, apareceu logo a correr. Quando a menina o viu fez-lhe uma das suas mais bonitas reverências — uma que o primo mais velho lhe tinha ensinado — e disse-lhe: «Bom-dia, senhor gato!» O gato não respondeu nada. E a menina teve medo ao ver aquele bicho tão grande a avançar para ela com uns olhos tão grandes e uma boca tão grande. Teve muito medo e desatou a chorar. O gato quis lá saber. Engoliu-a de um trago (foi muito bem feito) e foi-se embora todo contente e lambendo os beiços, ao passo que os passarinhos, aos quais o gato não prestara qualquer atenção, se pisgaram rapidamente para o lado contrário. E é tudo.

Um livro perfeito para conviver com citações épicas e eventualmente estampar algumas em t-shirts



O humor de Allais tem afinidades com o de Satie e com o de Félix Fénéon, e nada escapa à sua acção corrosiva: os valores burgueses, as instituições do Estado, a religião, as convenções literárias, as luminárias do meio intelectual, o senso comum e até o próprio autor (que se intromete frequentemente nos textos).
José Carlos Fernandes.

Time Out Lisboa, edição de 23-29 de Agosto de 2017. Texto completo aqui: página 1 e página 2.

A arte como arma de provocação e sabotagem



Allais estabeleceu situações de um humor espontâneo, tão suave e elegante como penetrante, com uma finura e um faro, prodigioso na destreza como lhe bastam duas pinceladas a partir de uma mistura de cores combinadas na paleta a partir de corpos esmagados de mosca, e com elas tanto pinta um aristocrata, uma dama com ânsias de rapto e histeria, uma beata ou mais algum dos universais cretinos, mas para lhes acertar nos queixos ainda lhes empresta caráter, rebentando as costuras do estereótipo. E não só é um maravilhoso retratista como trata o absurdo com umas tais confianças que o naturaliza, e ainda fideliza o leitor, por nunca falar para o boneco, mas dar-lhe o seu papel na trama. 

Diogo Vaz Pinto, num extenso texto dedicado a 63 Histórias de Humor e 1 Poema Melancólico, de Alphonse Allais, na edição de hoje do Jornal i.
Texto completo aqui: página 1 e página 2.

Boas letras



Alphonse Allais, como marginal das boas letras, assenta como uma luva (com a medida certa) à colecção Avesso, na sequência de Félix Fénéon, primeiro volume desta colecção. Isto porque Allais nunca foi visto como «escritor» durante muitos anos, mesmo depois da morte. Foi preciso que os surrealistas franceses o «descobrissem» (Breton, Cocteau) e, depois, Umberto Eco e outras sumidades, para começar a gozar de uma certa credibilidade literária e ter entrado no Panteão das Letras. Esqueceram-se os seus contemporâneos e os historiadores da literatura, que este herói dos estudantes e dos boémios do Quartier Latin era um grande escritor que, todos os dias, ajudava a criar o futuro da grande literatura humorística e satírica francesa.


Da introdução de Filipe Guerra a 63 Histórias de Humor e 1 Poema Melancólico, de Alphonse Allais.

Quatro de dez



A Avesso é uma colecção de dez livros de ficção (consulte a lista de autores e títulos na barra do lado direito). Até ao momento, foram publicados quatro volumes:

Notícias em três linhas, de Félix Fénéon.

Quartos Alugados, de Alexandre Andrade.
(Primeira edição esgotada. Segunda edição já disponível no sítio da editora e nas livrarias.)

O Empresário, de Johann Gottlieb Stephanie der Jüngere.

63 Histórias de Humor e 1 Poema Melancólico, de Alphonse Allais

Um nome que vai ficar na literatura portuguesa

Alexandre Andrade, autor de "Quartos Alugados", editado na Colecção Avesso, ganhou mais uma leitora atenta: Bárbara Bulhosa, da editora Tinta da China. Na última edição da Notícias Magazine (8 de Janeiro de 2017), Bárbara Bulhosa afirma que Alexandre Andrade "é uma voz nova, muito culta e articulada, que escreve de forma original, procurando referências que são tudo menos óbvias. Vai ser um nome que vamos ouvir falar de certeza. Mais do que isso, vai ser um nome que vai ficar na literatura portuguesa".
 



Apresentação de "O Empresário", no Porto



A apresentação de "O Empresário", de Johann Gottlieb Stephanie der Jüngere, terceiro volume da Colecção Avesso, acontece na Livraria Flâneur, sexta-feira, 28 de Outubro, pelas 21h00. Com a presença de Virgílio Melo, tradutor, Sousa Dias, autor do prefácio, e Pedro Junqueira Maia, responsável pela adaptação da partitura de W. A. Mozart.